domingo, 27 de fevereiro de 2011

Que tal estudarmos os efeitos filosoficos e psicologicos deste conflito?

RESPONSABILIDADES DA ONU NO CONFLITO DO SRI LANKA

Julio César Xavier Langa.[1].
Resumo; 1 – Introdução; 2 – Contextualização; 3 – Conflitos armados e fracassos das tentativas conciliatórias; 4 – Da responsabilidade da ONU e sua atuação do Sri Lanka; 5 – Conclusão; 6- Referência Bibliográfica.



RESUMO

A muito se discute a responsabilidade da ONU em solucionar conflitos, tendo em vista que muitas vezes se mostra omissa em alguns, nesse estudo  estará sendo observado o conflito do Siri Lanka que durou quase vinte seis anos, resultando em muitas mortes de civis e exterminando os Tâmeis, um povo que já habitava o território a mais de um século e que aos poucos foi sendo anulado pelo governo Hindu, sofrendo com boicotes através de restrições rebeliões e conflitos armados com o governo. Com isso pergunta-se: até aonde o poder e a responsabilidade da ONU em solucionar conflitos mundiais, seja eles internos ou externos, esta sendo usado para solucioná-los, partindo do principio que ela é considerada a força maior no que tange as relações internacionais? Após anos de atuação em diversos cenários mundiais qual seria a verdadeira função da ONU? Será que ela poderia atuar de forma diferenciada em conflitos ou  somente após o termino dos mesmos, atuando como mantenedora da paz dando suporte para civis que praticamente perderam muito com os conflitos. Manter a paz após conflitos seria essencial para o mundo atual? Ou já entramos em uma era que a Organizações das Nações Unidas teriam que ter outra função? Talvez a de evitar ao invés da de reparar os danos causados pelos conflitos, concluindo que tal espécie de responsabilidade constitui a garantia do cumprimento das disposições do acordo firmado entre as nações relacionado a paz mundial.Nesse contexto, é intenção deste estudo a análise sobre o papel da ONU em conflitos internos, desenhando suas linhas gerais e ainda alguns aspectos tênues do contexto histórico que influenciou e guiou o ao conflito e por fim ao o seu fim.



ABSTRACT

The responsibility is much discussion of the UN in resolving conflicts, given that often lacking in some shows, this study will be noted by the conflict in Sri Lanka that lasted almost twenty eight years, resulting in many civilian deaths and exterminating Tamil, a people who already inhabited the territory more than a century and was gradually being aborted by the Hindu government, suffering from boycotts by restrictions rebellions and armed conflicts with the government. Thus the question arises: How far the power and responsibility of the UN in resolving global conflicts, whether internal or external, is being used to solve them, assuming that it is considered a force majeure regarding international relations? After years working in various global scenarios which would be the true function of the UN? Could she act differently in conflicts or only after the end of them, acting as the peacekeeping giving support to civilians who almost lost a lot of conflicts. Keeping the peace after conflict was essential to the world today? Or have we entered an era in which the United Nations organizations would have to have another function? Perhaps to avoid rather than to repair the damage caused by conflicts, concluding that this kind of responsibility is ensuring compliance with the provisions of the agreement signed between nations related to world peace.In this context, it is the intention of this study, analysis on the UN role in internal conflicts, drawing broadly and even some subtle aspects of the historical context that influenced and steered the conflict and finally to its end.



PALAVRAS-CHAVE

 Sri Lanka – Conflito – Responsabilidade - ONU

KEYWORDS

 Sri Lanka - Conflict - Responsibility – UN
Ouvir
Ler foneticamente


1 - INTRODUÇÃO

O objetivo principal da ONU é manter a paz, através de intervenções com tropas que estudam as melhores formas de criar harmonia e manter a paz em países com conflitos, sejam eles internos ou externos, porém nesse artigo recairá sobra a ONU a responsabilidade internacional de um dos maiores conflitos internos do século XX e XXI, o do Sri Lanka, que durou vinte e seis  anos e deixou um saldo de mais de 70 mil mortos. Para isso, esse estudo irá abordar as principais causas, contexto histórico, e as ações que culminaram  a uma disputa territorial tão longa e com índices tão elevados de refugiados e mortos. Aprofundaremos o debate no que tange à responsabilidade da ONU, não sem criar comentários sobre as divergências acerca da teoria do risco de ataques terroristas.

2 – CONTEXTUALIZAÇÃO

2.1 – ORIGEM DO CONFLITO DO SIRI LANKA

Localizado ao sul da Índia, possui montanhas escarpadas no centro e planícies férteis ao norte. O Sri Lanka é um país pluetinico om uma população de cerca de 21 milhões de habitantes.
 A ilha era habitada originalmente pelos cingaleses. A quase 2000 mil anos chegaram os indianos que deram origem ao povo Tâmil. Esses dois grupos passam a se hostilizar por questões religiosas e as possibilidades de acordo são escassas, devido as diferenças políticas e étnicas, as sanções impostas pelo governo ao povo tamil, como acesso a universidades, repartições publicas e imposição de um novo idioma, desencadeou o conflito.
Assim, apesar de uma guerra civil ser intensamente política, muitos autores defendem que a razão chave do conflito é a falha do desenvolvimento económico. E sobre este assunto TOMMASOLI[2] faz uma afirmação interessante: “as guerras civis são, até certo ponto, uma continuação da economia por outros meios”.
AGERBACK[3] sublinha que a pobreza não é por si só uma causa suficiente do conflito, o que é comprovado pela existência de países pobres que não estão em guerra. A autora afirma que “a causa não é tanto a falta de recursos per se, como injustiça”, mas sim a existência de “estruturas económicas e políticas que mantêm o domínio de um grupo no centro do poder sobre um grupo na periferia, ao ponto de negar os mais básicos direitos económicos, sociais e políticos”.
As origens do conflito remontam ao período em que a ilha se tornou independente da Grã-Bretanha, em 1948. Após a saída dos europeus da região nos
anos 50, que ali permaneceram por mais de 400 anos, os cingaleses assumiram o
controle do país, segregaram os Tâmeis em comunidades separadas, impuseram uma cultura considerada pelo povo tâmil discriminatória.
Os primeiros choques entre os dois grupos ocorrem em 1956, quando o cingalês é declarado língua oficial e em 1959 é assassinado o primeiro-ministro Solomon Bandaranaike. Sua mulher, Sirimavo Bandaranaike, é eleita primeira-ministra em 1960.   Ela chefia um governo esquerdista que entra em atrito com os EUA e o Reino Unido ao nacionalizar companhias petrolíferas ocidentais. Seu sucessor, Dudley Senanayake, assume o governo em 1965, procurando reaproximar o país dos EUA. Em 1970, Sirimavo Bandaranaike é reeleita primeira-ministra.O   conflito se deixa de ser pacifico e se torna armado em julho de 1983, quando o povo Tamil  testemunhou o pior massacre de uma série de açõesl executadas de uma forma muito planeada pelo governo do Sri Lanka[4].
Essas ações não ocorreram apenas no norte e leste do Sri Lanka, onde os tâmises eram a maioria, mas também em todo o país. Mais de 4000 pessoas foram mortas e milhares ficaram sem casa. As suas propriedades foram ou saqueadas ou destruídas, eliminando assim os seus meios de sustento. Mesmo nas prisões, os presos tâmiles foram brutalmente mortos e os seus olhos arrancados. Mais de 150 mil pessoas fugiram do Sri Lanka para a Índia e para países ocidentais como refugiados.
Quando os anos imediatamente posteriores à independência tenham sido de relativa paz, logo começaram as tensões entre a maioria cingalesa, formada por budistas e a comunidade tâmil, formada por hinduístas e católicos romanos. A história nacional é marcada pelo confronto entre os cingaleses e os três milhões de tâmeis. Sucessivos governos privilegiam os cingaleses em educação e no acesso aos empregos públicos.
À época, o governo argumentava estar corrigindo os desequilíbrios do período colonial, quando os cingaleses acusavam os britânicos de dar tratamento preferencial aos tâmises. Esta discriminação por parte do governo foi citada pelo líder dos Tigres Tâmeis, Prabhakaran, como o principal motivo que o levou a criar, em 1972, a milícia Novos Tigres Tâmeis, que quatro anos depois foi rebatizada como Tigres de Libertação da Pátria Tâmil.
Desde então, a luta pela criação de um Estado tâmil foi usada como justificativa para inúmeros ataques suicidas e outros atentados empreendidos pelos Tigres Tâmeis contra alvos civis e militares.

2.2 – CONFLITOS ARMADOS E FRACASSO DAS TENTATIVAS CONCILIATÓRIAS

A guerra civil que se desenrolou até 2008 teve inicio em 1983, motivada pelo atentado Tâmil onde foram mortos treze soldados do Sri Lanka. Em 1987, os combates retrocederam e o governo do Sri Lanka convidou o governo indiano a fazer parte do processo de paz que incluía uma série de concessões e restrições do governo do Sri Lanka aos Tameis: a devolução do poder às províncias reivindicadas, a unificação das províncias do norte do país e respeito á cultura Tâmil.
A Índia participou parcialmente do processo de paz, em 1985, houve uma convenção e os Tameis reiveindicaram o territorrio ao norte do Sri Lanka, onde iriam formar uma nacionalidade reconhecida, porém a recusa do governo do Sri Lanka negou as reivindicações e as conversações fracassaram.
Os rebeldes não concordaram com o envolvimento indiano, pois após o acordo assinado em 1987 India Sri Lanka, sem qualquer participação do povo Tamil,. A India que inicialmente havia colaborado e incentivado os Tameis, acaba impondo o acordo, logo era de seu interesse a expansão territorial, apresentando um papel dúbio em relação ao conflito, gerando desconfianças no povo Tamil,  com isso as convenções de paz sucumbiram e a guerra civil recomeçou. Culminando, em 1991 com o assassinato do Primeiro Ministro da Índia, Rajiv Ghandi, por militantes Tâmil. A partir dessa data os Tameis perdem todo o apoio fornecido até então pela índia, que os auxiliavam com armas e treinamentos militares.
Diante disso o governo do Sri Lanka investiu numa ofensiva contra os Tâmeis, ocupou regiões dominadas por estes, mas os tâmeis contra-atacaram e verdadeiras carnificinas foram ocorridas dos dois lados.
Em 2008 morre o líder dos tâmeis e os hindus se tornam os donos de todo o território do Sri Lanka, sendo esse o desfecho do conflito.

3- DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS E SUA ATUAÇÃO NO SRI LANKA   
Diante desse conflito, vê-se que o papel da ONU tem se tornado cada vez mais importante no que diz respeito as convenções de paz. Para isso pesquisou-se sobre a intervenção do órgão no regulamento das Nações Unidas[5], e por que sendo ela o maior poder mundial, não intervem efetivamente nos conflitos, agindo com missões de paz somente após os conflitos.
Segundo COLLIER[6] esta não só tem o direito moral, como tem o dever prático de intervir no sentido de prevenir e encurtar os conflitos, porque quem toma decisões sobre o início ou o fim da guerra civil ignora os enormes e adversos efeitos de dominó que a guerra provoca”.
 As funções principais da responsabilidade da ONU são: manter a paz mundial, o desenvolvimento de relações amistosas e de colaboração entre as nações, a defesa dos direitos humanos e promover o bem-estar social e a melhoria das condições de vida.
Para viabilizar essa responsabilidade, as Nações Unidas criaram e desenvolveram as Operações de Manutenção de Paz, como um de seus principais instrumentos a serviço dos vários meios de solução pacífica de controvérsias.
Tais operações se caracterizam pela forma de intervenção não-violenta, voluntária, executada com o consentimento das partes interessadas e revestidas de absoluta imparcialidade sua arma mais poderosa.
Como não possuem Forças Armadas próprias, as Nações Unidas planejam cada operação em função das necessidades específicas da nova situação. O desencadeamento é autorizado pelo Conselho de Segurança, a quem incumbe fixar-lhe os objetivos gerais, a amplitude e o calendário próprios.
Como dito, os conflitos só contam com a interferência da ONU, caso uma das partes autorize expressamente a sua intervenção. No caso do Sri Lanka não houve essa concessão, ficando a Índia incumbida de intermediar o conflito na busca de uma solução pacífica. Contudo, é cediço que a Índia era detentora de interesses territoriais expansionistas da região do Sri Lanka, como já explanado na apresentação do tema. Diante da omissão das Nações Unidas e do conluio de interesses político-financeiros para excluí-la das convenções de paz, o que se viu foi a perda de poder do Tamis, hostilizados pelo governo do Sri Lanka em razão exclusiva da omissão das Nações Unidas que não exerceram o poder que lhes é outorgado para impedir o massacre tâmil em toda a extensão do conflito.
Desde logo, BRAUER[7] (1998:72) sublinha que “construir e manter a paz no interior e entre os Estados- Nação é, claramente, um problema de ação coletiva” e no caso sub examine, caberia inteiramente à ONU, posto que esta é a sua principal responsabilidade e função.
No Sri Lanka a Onu poderia ter proposto ações que contribuiriam para a manutenção da paz, antes que acontecessem todos os conflitos até então discutidos, entretanto, mesmo detendo poder e competência de intervenção, mostrou-se inerte em relação ao interesse de negociação da resolução pacifica do conflito.
Nesse sentido, BRITO[8] segue afirmando que as falhas da comunidade internacional em responder ao genocídio diminuem a credibilidade do sistema.
De fato, a tardia intervenção das Nações Unidas no Sri Lanka e a morte de milhares de pessoas colocam em cheque a função essencial e responsabilidade da mesma e questiona sua forma de intervenção.
A ação da Organização das Nações Unidas mostra-se de todo ineficaz no conflito analisado e em vários outros que se passam até os dias de hoje, vez que a presença dos soldados de capacete azul não é capaz de deter grupos de milicianos violentos que atentam contra a população civil. A questão central é: a ação preventiva e resolutiva da ONU seria em muito preferível à ação remediadora que hoje ela opera. Pois ações preventivas poupam vidas, enquanto as remediadoras apenas atuam de forma paliativa após genocídios de grupos conflitantes.
Evitar a morte e a violência contra milhares de civis das regiões de conflito seria o verdadeiro papel da ONU. Manter uma paz aparente, conquistada à custa do sangue do tamises foi de todo despiciendo.
Para o Sri Lanka a paz custou a vida de parte de sua população e a perda de seu território milenarmente adquirido em detrimento de interesses políticos e econômicos. Não houve paz, houve a aniquilação e diáspora de uma nação em benefício de outra.
Após anos de conflitos, vários mortos e muitos refugiados, a ONU se mostraram omissa no que diz respeito ao procedimento de uma relação internacional, pois com o apoio de varias nações poderia de maneira diplomática ter interferido e solucionado o problema, que persistiu durante mais de vinte seis anos, deixando mais de cem mil mortos.
Certamente essa omissão deixou danos irreparáveis, além de muitos mortos e refugiados, dos quais, em sua maioria, migraram para outros paises.

4- CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Esse Artigo apresentou a fragilidade da Onu em resolver conflitos internos como o do Sri Lanka, pois a guerra civil desse país teve consequencias graves em varias esferas de sociedade, provocando muitas mortes, deslocamento humano e danos de caráter econômico e social. No que diz respeito ao conflito viu-se que o mesmo esteve fortemente ligado as diversidades étnicas, políticas e sociais relacionadas a um povo que teve praticamente sua cultura bloqueada, por embargos principalmente culturais e políticos.
A questão abordada sobre o papel da ONU nas relações internacionais, no que diz respeito a interveção de convenção de paz fica sendo questionada com as ações representadas pela mesma no cenário mundial.
Por fim, analisou-se a forma como a ONU atuou no mencionado conflito. Sua interferência tardia e a impossibilidade de evitar a morte de milhares de pessoas. Desse modo, questionamos a abrangência e poder de ação da ONU e até que ponto pode ela influenciar o processo de guerra e construção da paz. No caso específico do Sri Lanka vimos que a omissão inicial e envolvimento tardio foram os responsáveis pela catástrofe de mais de 29 anos de guerra.
Saliente-se, ademais, que sobre o tema, é fundamental não separar questões econômicas de questões políticas internas e tentar perceber o conflito de forma global e enquadrado no seu contexto histórico. Deu-se especial atenção às questões étnicas e às sensibilidades das diversas partes no conflito. Quando isso não aconteceu, a ajuda foi vista como o apoio a um dos lados do conflito, exacerbando tensões e potencializando o conflito.
Em 2008 um homicídio pôs cabo ao conflito, estimou-se a morte de mais de cem mil pessoas, a ONU tomou partido com 29 anos de atraso, com força pacificadora, após o extermínio Tâmil, o país ainda esta em reconstrução e mais do que nunca, precisa de ajuda internacional, cabe a ONU agora manter a paz.

6- REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
TOMMASOLI, Massimo (2003), Inequality, vulnerability to violent conflict and aid
incentives for peace. Fourth Annual Global Development Conference. Development
Co-operation Directorate, OECD, Paris.

AGERBAK, Linda (1996), “Breaking the cycle of violence: doing development in
situations of conflict” in Development in States of War”.

P. Boniface, Atlas das Relações Internacionais, Plátano Edições, Lisboa, 1999


WWW. onu-brasil.org.br

COLLIER, Paul et al. (2003), Breaking the conflict trap. Civil war and
development policy. World Bank. Washington, pp.222.


BRAUER, Jurgen (1998), “A paz regional como um bem público internacional: a
acção colectiva na África Austral” in Nação e Defesa (1999), n.º 90, pp.93.

BRITO, Alexandra Barahona (2002), “Direitos Humanos, idolatria e política: a
inevitabilidade da ambiguidade”in Política Internacional, n.º 26.
















[1] Julio  César Xavier Langa.
[2] TOMMASOLI, Massimo (2003), Inequality, vulnerability to violent conflict and aid
incentives for peace. Fourth Annual Global Development Conference. Development
Co-operation Directorate, OECD, Paris.

[3] AGERBAK, Linda (1996), “Breaking the cycle of violence: doing development in
situations of conflict” in Development in States of War”.
[4]P. Boniface, Atlas das Relações Internacionais, Plátano Edições, Lisboa, 1999
[5] onu-brasil.org.br
[6] COLLIER, Paul et al. (2003), Breaking the conflict trap. Civil war and
development policy. World Bank. Washington, pp.222.
[7] BRAUER, Jurgen (1998), “A paz regional como um bem público internacional: a
acção colectiva na África Austral” in Nação e Defesa (1999), n.º 90, pp.93.
[8] BRITO, Alexandra Barahona (2002), “Direitos Humanos, idolatria e política: a
inevitabilidade da ambiguidade”in Política Internacional, n.º 26.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O SERMÃO DA MONTANHA (versão para educadores)




O SERMÃO DA MONTANHA

(versão para educadores)

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:

- Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles...

Pedro o interrompeu: - Mestre, vamos ter que saber isso de cor?

André perguntou: - É pra copiar no caderno?

Filipe lamentou-se: - Esqueci meu papiro!

Bartolomeu quis saber: - Vai cair na prova?

João levantou a mão: - Posso ir ao banheiro?

Judas Iscariotes resmungou: - O que é que a gente vai ganhar com isso?

Judas Tadeu defendeu-se: - Foi o outro Judas que perguntou!

Tomé questionou: - Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?

Tiago Maior indagou: - Vai valer nota?

Tiago Menor reclamou: - Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.

Simão Zelote gritou, nervoso: - Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!? 

Mateus queixou-se: - Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada! 

Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo: - Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios? 

Caifás emendou: - Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?

Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus: - Quero ver as avaliações da Provinha Brasil, da Prova Brasil e demais testes e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor efetivo... 

Jesus deu um suspiro profundo, pensou em ir à sinagoga e pedir aposentadoria proporcional aos trinta e três anos. Mas, tendo em vista o fator previdenciário e a regra dos 95, desistiu. Pensou em pegar um empréstimo consignado com Zaqueu, voltar pra Nazaré e montar uma padaria...

Mas olhou de novo a multidão. Eram como ovelhas sem pastor... Seu coração de educador se enterneceu e Ele continuou: - Felizes vocês, se forem desrespeitados e perseguidos, se disserem mentiras contra vocês por causa da Educação. Fiquem alegres e contentes, porque será grande a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram outros educadores que vieram antes de vocês. 

Tomé, sempre resmungão, reclamou: - Mas só no céu, Senhor? ?

Tem razão, Tomé - disse Jesus: - há quem queira transformar minhas palavras em conformismo e alienação... Eu lhes digo, NÃO! Não se acomodem. Não fiquem esperando, de braços cruzados, uma recompensa do além. É preciso construir o paraíso aqui e agora, para merecer o que vem depois...

E Jesus concluiu: - Vocês, meus queridos educadores professores são o sal da terra e a luz do mundo...

Texto de abertura do Programa Rádio Vivo - Rádio Itatiaia, Belo Horizonte. MG, de 15/10/2009, texto do professor Eduardo Machado.



A voz de Deus



A voz de Deus

Todos já provamos venenos, voluntariamente ou inconscientemente.
Todos tivemos esses momentos de indecisão onde a luta entre a razão e a desrazão nos fizeram pegar caminhos que sabíamos errados e os pegamos assim mesmo.

Todos provamos o gosto amargo do arrependimento e, nem que seja uma vez na vida, cometemos outra vez os mesmos erros, demos os mesmos passos.

Nos desculpamos, nos perdoamos, nos fizemos mil promessas, que muitas horas depois ficaram esquecidas.
 Houve nesses momentos aquela vozinha interior que nos avisava, nos prevenia, tentava insistentemente nos acordar para a realidade, mas preferimos ignorar e seguir em frente.

Quantas vezes e de quantas maneiras Deus nos falou e não quisemos ouvir?
Quantas e quantas vezes choramos depois e ainda nos perguntamos "por que?"
Achamos injusto, sem que nossa consciência tenha nos levado ao passado onde poderíamos ter tomado um caminho diferente.

Há pessoas que nunca ouviram a voz de Deus e nunca ouvirão.
Elas não são mais pecadoras e menos privilegiadas que outras, mas são surdas aos sinais da vida, aos fatos e acontecimentos e elas continuarão a beber o veneno do mal e a sofrer as conseqüências dele.

Deus quer corações de carne, não de pedra; quer corações que perdoam, se comovem, entregam-se incondicionalmente
 
Ele não quer sacrifícios e nem ama nosso sofrimento, mas aprecia nossa humildade de saber que nada sabemos e que o que desconhecemos Ele pode nos mostrar.

Deus quer pessoas que crêem, não pela metade, só nisso ou só naquilo, pessoas que não andam em cordas bambas e sabem perfeitamente onde colocam os pés. Pessoas que calçam as sandálias da fé e não hesitam, abrem os olhos, os ouvidos e o coração ao que Ele diz, porque Suas promessas são perfeitas e perfeitos são os caminhos que preparou para nós, ainda que diferentes daqueles que imaginamos.

Aqui vai nossa reflexão, com o Desejo que vocês tenham todos
a proteção Divina:


O ano começa sabemos que haverá no meio dele noites escuras e claras, dias de chuva e dias de sol, de frio e de calor. Nada disso nos é desconhecido, apesar de não sabermos quando, nem como ou por quê. Na vida não é diferente e, creiam, que tenhamos problemas um dia ou outro, o amanhã certamente
chegará e nossa fé nos deixará de pé, nossas forças serão renovadas e tudo isso depende muito de nós.

Um abraço carinhoso e amigo a cada um de vocês, com todo o amor que existe dentro de mim!

A vocês que chegam agora, sintam-se em casa e tenham-me como amiga.

Que Deus os fortaleça e dê vitórias a cada passo!

Até muito breve, se assim Deus permitir!

Letícia


  © Letícia Thompson



sábado, 4 de dezembro de 2010

Pensamento

A neurobiologia da terapia do esquema e o processamento inconsciente

Revista Brasileira de Terapias Cognitivas - A neurobiologia da terapia do esquema e o processamento inconsciente.mht

Revista Brasileira de Terapias Cognitivas

versão impressa ISSN 1808-5687

Rev. bras.ter. cogn. v.1 n.1 Rio de Janeiro jun. 2005



A neurobiologia da terapia do esquema e o processamento inconsciente

The neurobiology os schema therapy anda the unconscious processing


Marco Montarroyos Callegaro
Mestre em Neurociências e Comportamento; Diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva - ICTC; Professor do curso de psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL



RESUMO

Neste artigo, explora-se a utilidade da noção de processamento mental inconsciente quando aplicada a um dos mais recentes desenvolvimentos em terapia cognitiva, a Terapia focada no Esquema (Schema Therapy), de Jeffrey Young (1990; 1999). A teoria do esquema é uma abordagem integrativa que expande a Terapia Cognitivo-Comportamental tradicional, integrando contribuições da Gestalt, Psicanálise e do Construtivismo em um novo sistema de psicoterapia (Young, Klosko & Weishaar, 2003). A teoria do esquema é sintetizada, examinando-se a neurobiologia subjacente a esta abordagem e sua aproximação com as neurociências cognitivas, em especial a existência de dois sistemas que operam em paralelo e estocam diferentes tipos de informação relevante para a experiência de aprendizagem emocional. Um dos sistemas é consciente e mediado pelo hipocampo e áreas corticais relacionadas, sendo o outro inconsciente e se processa através da amígdala. Os Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs) envolvem respostas emocionais disparadas através de processamento inconsciente, sem a participação dos centros superiores de processamento neural envolvidos no pensamento consciente e avaliação racional. A terapia do esquema procura ajudar os pacientes a identificar seus esquemas e se tornar consciente das memórias, emoções, sensações corporais, cognições e estilos de enfrentamento associados com estes esquemas. O autoconhecimento sobre os esquemas e estilos de enfrentamento permite que o paciente exerça certo controle sobre suas reações, aumentando seu poder de escolha e deliberação consciente em relação aos EIDs.
Palavras-chave: Terapia do esquema, Neurobiologia, Processamento inconsciente.

ABSTRACT
In this article, we exploit the notion of unconscious mental processing when applied to a recent development in Cognitive Therapy, Jeffrey Young’s (1990; 1999) Schema Therapy. Schema Therapy is summarized, examining the underlying neurobiology of this approach and the proximity with Cognitive Neuroscience, especially the existence of two systems that operate in parallel and store different kinds of relevant information for emotional learning. One of these systems is conscious and is mediated by hippocampus and surrounding cortical areas; the other system is related to an unconscious processing of stimuli by the amygdala. The Early Maladaptive Schemas (EMSs) involve emotional responses triggered by unconscious emotional processing without participation of higher centers of neural processing involved in conscious thinking and rational evaluation. Schema Therapy helps patients identify EMSs and become conscious about memories, emotions, bodily sensations, cognitions and associated coping styles. Self-knowledge about EMSs permits control by the pre-frontal cortex of the negative reactions triggered by the amygdala system, increasing the patient’s power of flexibility and choice, allowing more reflection and conscious deliberation.
Keywords: Schema therapy, Neurobiology, Unconscious processing.



Introdução
Neste artigo, explora-se a utilidade da noção de processamento cognitivo inconsciente quando aplicada a um dos mais recentes desenvolvimentos em terapia cognitiva, a Terapia focada no Esquema (Schema Therapy), de Jeffrey Young (1990; 1999), uma abordagem integrativa que expande a Terapia Cognitivo-Comportamental tradicional, agregando contribuições da Gestalt, Psicanálise e do Construtivismo em um novo sistema de psicoterapia (Young, Klosko & Weishaar, 2003).
Existe uma necessidade crescente de reconhecimento do processamento inconsciente no funcionamento mental por parte tanto de neurocientistas como psicoterapeutas cognitivos, uma vez que as ciências do cérebro mostram que a maior parte do processamento mental ocorre fora do palco da consciência (Damásio, 1999, 2000, 2003; Ramachandran & Blakeslee, 2002; Squire & Kandel, 2003; Schacter, 2003; Squire, 1987). No entanto, este inconsciente não é o dinâmico – não é povoado pelos elementos concebidos por Freud. Embora muitos neurocientistas não façam menção direta e procurem evitar confusão semântica evitando o termo “inconsciente” (em função da associação com o inconsciente dinâmico), as características do funcionamento do encéfalo reveladas pela neurociência cognitiva atual descortinam um cenário onde a maior parte da atividade mental é inconsciente, exigindo uma nova formulação, um “novo inconsciente” como proposto no recente livro The New Unconscious organizado por Hassin, Uleman e Bargh (2005).
Inicialmente enfocaremos a definição clássica de esquema em Terapia Cognitiva (TC), para a seguir apresentar a Teoria do Esquema de Jeffrey Young (1990; 1999), examinando-se a neurobiologia subjacente a esta abordagem e sua aproximação com as neurociências cognitivas. Em especial, ressalta-se a existência de dois sistemas que operam em paralelo e estocam diferentes tipos de informação relevantes para a experiência de aprendizagem emocional. Um dos sistemas é consciente, sendo mediado pelo hipocampo e áreas corticais relacionadas, e o outro sistema é inconsciente e se processa através da amígdala. Os Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs) teorizados por Young envolvem respostas emocionais disparadas através de processamento inconsciente, sem a participação dos centros superiores de processamento neural envolvidos no pensamento consciente e avaliação racional. A Terapia do Esquema procura ajudar os pacientes a identificar seus esquemas e se tornar consciente das memórias, emoções, sensações corporais, cognições e estilos de enfrentamento associados com estes esquemas. O autoconhecimento sobre os esquemas e estilos de enfrentamento permite que o paciente exerça certo controle sobre suas reações, aumentando seu poder de escolha e deliberação consciente em relação aos EIDs.

Esquemas Mentais
Um esquema, para Beck (1982/1979), refere-se a uma rede estruturada e inter-relacionada de crenças que podem ser ativadas ou desativadas conforme a presença ou ausência de experiências estressantes. Segundo Segal (1988), um esquema pode ser definido como um conjunto de “elementos organizados de reações e experiências passadas que formam um corpo de conhecimento relativamente coeso e persistente, capaz de guiar a percepção e a avaliação subseqüente” (p.147). Um esquema é uma estrutura cognitiva que processa informação e que
(...) filtra, codifica e avalia os estímulos aos quais o organismo é submetido... Com base na matriz de esquemas, o indivíduo consegue orientar-se em relação ao tempo e espaço e categorizar e interpretar experiências de maneira significativa. (Beck, 1967, p. 283)
Segundo Beck (1967), os esquemas podem explicar o fenômeno da repetição que os psicanalistas identificaram clinicamente, e sobre o qual Freud teorizou. As imagens, sonhos e associações livres apresentam temas recorrentes ligados aos esquemas, que podem ficar inativos e depois serem “energizados ou desenergizados rapidamente, como resultados de mudanças no tipo de input do ambiente” (p. 284). Os esquemas contaminam a arquitetura mental do sujeito e governam sua forma de interpretar os acontecimentos, resultando em uma percepção distorcida e tendenciosa, refletindo-se “nas típicas concepções errôneas, atitudes distorcidas, premissas inválidas, metas e expectativas pouco realistas” (p. 284).
Embora o uso do termo “inconsciente” tenha sido evitado por Beck e por outros teóricos de TC para designar os esquemas, podemos seguramente concluir que estes são mecanismos inconscientes – mas de um inconsciente cognitivo, não do inconsciente dinâmico da psicanálise. A razão principal que leva os teóricos a evitarem o termo é, provavelmente, o cuidado para evitar confusão conceitual ocasionada por um problema semântico – o termo inconsciente praticamente subentende o inconsciente dinâmico concebido e popularizado por Freud. O terapeuta cognitivo Arthur Freeman (1998) argumenta que os esquemas são mecanismos inconscientes que afetam nosso comportamento, cognição, fisiologia e emoções, e se tornam, com o passar do tempo, a própria definição da pessoa (individualmente e como parte de um grupo). Referindo-se aos esquemas, Freeman acredita que “pode-se dizer que eles são inconscientes, usando-se uma definição do inconsciente como idéias das quais não temos consciência” (p. 32). Ou seja, os esquemas podem ser adequadamente descritos como mecanismos inconscientes, se adotarmos a noção de inconsciente cognitivo.
A expressão “inconsciente cognitivo” foi cunhada pelo psicólogo John Kihlstrom em um artigo publicado na influente revista Science (Kihlstrom, 1987). A teoria computacional, a Psicologia Cognitiva e as Ciências Cognitivas forneceram o substrato teórico para entender o funcionamento consciente e inconsciente, fundando-se no conceito de mente como mecanismo de processamento de informação. Os conteúdos conscientes provêm do processamento de informações, mas não estamos conscientes do processamento em si, somente do resultado final.
O funcionamento mental envolve processos conscientes e inconscientes, e obviamente não podemos entender a mente sem contemplar o processamento inconsciente. O inconsciente cognitivo apresentou-se como um modelo alternativo sobre a mente inconsciente. A idéia central de Kihlstrom sobre o funcionamento do processamento inconsciente é a de que o cérebro efetua muitas operações complexas cujo resultado pode se transformar em conteúdo consciente, embora não tenhamos acesso às operações que originam este conteúdo (Kihlstrom, 1984, 1985; Kihlstrom & Cantor, 1984).
Os esquemas manifestam-se em padrões complexos de pensamentos, que são em geral empregados mesmo na ausência de dados ambientais, e podem servir como um mecanismo cognitivo que transforma os dados que chegam em conformidade com idéias preconcebidas (Beck, 1963; 1964; Beck & Emery, 1985). Falhas características no processamento de informação mantém esta distorção das experiências de vida, e Beck adotou o termo distorções cognitivas para descrever o conjunto de erros sistemáticos de raciocínio presentes durante o sofrimento psicológico (Beck, 1987; Beck, Rush, Shaw & Emery, 1982/1979). As crenças disfuncionais são perpetuadas através das distorções, modos mal-adaptativos de processar informações como, por exemplo, a hipervigilância em relação a ameaças ambientais dos pacientes ansiosos ou a excessiva e indevida responsabilização pessoal pelas falhas e erros cometidos pelos sujeitos com depressão.
Como poderíamos relacionar os modelos cognitivos da TC com o processamento inconsciente? Apesar de evitarem a utilização do termo “inconsciente” pela conotação psicanalítica que logo associamos à expressão, veremos a seguir que os modelos cognitivos podem ser extremamente úteis para compreender o processamento mental inconsciente (Hassin, Uleman & Bargh, 2005) e inventivos para buscar técnicas e estratégias terapêuticas eficazes na modificação dos resultantes padrõesdisfuncionais cognitivos, comportamentais e emocionais.
Esquemas e Processamento Inconsciente
Em 2000, a Associação Americana de Psicologia (American Psychology Association – APA) realizou sua convenção anual em Washington, e patrocinou um encontro entre dois clínicos de grande influência no cenário mundial da psicoterapia, Albert Ellis e Aaron Beck (Chamberlin, 2000). Ambos reconheceram, neste encontro, o valor de algumas idéias de Sigmund Freud para suas teorias, particularmente o papel de destacar a relevância dos processos mentais inconscientes na determinação do comportamento. Beck afirmou ter recebido forte influência da “idéia do determinismo psicológico” e Ellis declarou sobre Freud que “uma das principais coisas que ele fez foi chamar a atenção para a importância do pensamento inconsciente” (Chamberlin, 2000).
Em trabalhos mais recentes, Beck e colaboradores vem dedicando mais atenção à noção de um inconsciente cognitivo, baseado na idéia de uma natureza inconsciente no processamento cognitivo de informação (Beck & Alford, 2000). O conceito de processamento automático de informação, proveniente da Ciência Cognitiva e Psicologia Cognitiva, influenciou o constructo de pensamento automático em TC. A memória implícita, também chamada de não-declarativa ou inconsciente (Squire & Kandel, 2003; Schacter, 1987; 1992; 1996; 2003), tem sido citada por teóricos importantes em TC (por exemplo, Jeremy Safran, 2002) como substrato teórico fundamental para compreender cognições que não são acessíveis à percepção consciente do paciente, mas que podem ser modificadas pela identificação e testagem das crenças relacionadas aos problemas clínicos apresentados.
Conforme Kilhstrom definiu (Kihlstrom et al., 1992, p. 21), uma memória explícita é aquela que se refere a uma lembrança consciente de algum episódio prévio, onde o sujeito lembra deliberadamente de algum aspecto da experiência quando questionado. Em contraste, uma memória implícita é demonstrada por qualquer mudança no pensamento ou ação que é atribuível a alguma experiência passada, mesmo sem lembrança consciente do evento ocorrido.
Uma compreensão mais sofisticada sobre os esquemas é fundamental para desvendar os mecanismos da mente inconsciente. Os esquemas, depois de desenvolvidos, servem como modelos para o processamento das experiências ulteriores, e acabam desembocando em confirmações automáticas e circulares dos próprios esquemas.
Uma pessoa que estruturou uma auto-imagem como incapaz de ser amada vai processar a experiência de uma rejeição amorosa como evidência da veracidade de suas crenças, reconfirmando-as a cada experiência negativa de tal forma que, cada vez mais, parecem certas e reais suas crenças sobre si mesmo – este processo cria um circuito de retroalimentação que estabiliza a idéia de ser indigna de amor. O comportamento, por sua vez, é negativamente influenciado por este conjunto de crenças, fazendo a pessoa agir de modo a confirmar sua profecia catastrófica (a previsão sem fundamento de que algo catastrófico acontecerá) - que gera continuamente o que é percebido como evidência confirmatória dos esquemas. Se o sujeito considera-se indigno de amor, agirá de forma acabrunhada e tímida, não olhará nos olhos e falará baixo em uma situação social, conduta que certamente aumenta sua chance de rejeição. As rejeições que ocorrem, por sua vez, confirmam os esquemas em um círculo vicioso autoperpetuador.
Os esquemas cristalizam-se nas profundezas do self, processando silenciosa e inconscientemente os dados da realidade - estão amalgamados em nossas percepções, julgamentos, desejos, necessidades, pensamentos e sentimentos. Este aspecto está presente no funcionamento mental de todos, mas se torna particularmente evidente quando tratamos de transtornos de personalidade (um conjunto de transtornos que envolvem padrões persistentes e dificuldades crônicas, como personalidade evitativa, paranóide, dependente, histriônica, esquizóide ou borderline, por exemplo). Normalmente, não estamos conscientes da operação silenciosa dos esquemas, nem mesmo de sua existência, somente dos resultados produzidos, que acabam compondo o núcleo de nossa personalidade. Nossa auto-imagem é estruturada pelos esquemas e seu caráter circular, como enfatizam Guidano e Liotti (1983), pois “a seleção de dados da realidade externa que são coerentes com a auto-imagem obviamente confirma – de maneira automática e circular – a identidade pessoal percebida...” (p. 88-89).

Teoria do Esquema de Jeffrey Young

Jeffrey Young é um criativo terapeuta cognitivo que completou seu pós-doutorado no Centro de Terapia Cognitiva sob a orientação de Aaron Beck, sendo fundador e atualmente diretor de pesquisa e treinamento dos centros de TC em Nova York e Connecticut. Sua colaboração com Beck impulsionou o desenvolvimento de uma expansão da teoria inicial da TC de curto prazo para o que chamou de Teoria do Esquema. Esta teoria é relativamente recente (foi formulada nos anos 90), tendo conquistado reconhecimento pelo valor heurístico e utilidade clínica no meio profissional, inclusive no Brasil, apesar de ainda pouco disseminada.
A terapia focada no esquema compartilha os elementos que caracterizam a terapia cognitiva, como um papel mais ativo para o terapeuta, o uso de técnicas de mudança sistemáticas, ênfase nas tarefas de casa, relacionamento terapêutico colaborativo e uso de uma abordagem empírica, onde a análise das evidências tem papel importante na mudança de esquemas (Young & Klosko, 1994).
O modelo desenvolvido por Young enfatiza a confrontação, a experiência afetiva, o relacionamento terapêutico como um veículo de mudança, e a discussão de experiências iniciais da vida, aproximando a TC da abordagem da Gestalt terapia e da Psicanálise em alguns aspectos. O modelo de Young se revela importante para o refinamento de uma abordagem psicoterápica (alternativa à Psicanálise) para abordar em profundidade os processos inconscientes. A terapia focada em esquemas é mais longa do que a TC, dedicando muito mais tempo para identificar e superar a evitação cognitiva, afetiva e comportamental.
O apoio empírico para a Teoria do Esquema é proveniente de estudos que utilizam a forma longa do Young Schema Questionnaire (Questionário de Esquemas de Young) Este instrumento é de grande utilidade clínica e de pesquisa, e já foi traduzido para muitos idiomas, inclusive português (Young, 2003). Investigações sobre as propriedades psicométricas do Questionário de Esquemas (Schmidt, Joiner, Young & Telch, 1995) revelaram coeficientes alfa para cada EID oscilando entre .83 a .96 e coeficientes de teste-reteste de .50 a .82 em uma amostra de população não clínica. As subescalas demonstraram alta confiabilidade teste-reteste e consistência interna, além de boa validade discriminante em medidas de estresse psicológico, auto-estima e sintomatologia de transtornos de personalidade.
Jeffrey Young propõe cinco construtos teóricos para expandir o modelo cognitivo de Beck, os Esquemas Iniciais Desadaptativos, a sistematização de domínios dos esquemas, e os conceitos de manutenção, evitação e compensação do esquema. Examinaremos a seguir mais detalhadamente estes construtos.

Esquemas Iniciais Desadaptativos
Os Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs) ou esquemas primitivos segundo Young (2003, p. 16) são “crenças e sentimentos incondicionais sobre si mesmo em relação ao ambiente”, representando o nível mais profundo da cognição, e “operam de modo sutil, fora de nossa consciência” (p. 75). Os EIDs se referem a “temas extremamente estáveis e duradouros que se desenvolvem cedo durante a infância, são elaborados ao longo da vida e são disfuncionais em um grau significativo” (p. 15), compõe núcleos profundos do self refletidos na auto-imagem tácita, como uma visão de si mesmo orgânica e inquestionável. São rígidos e incondicionais, como, por exemplo, quando o paciente sente que, não importa o que possa fazer, não será amado, mas sim abandonado e traído em sua confiança. O sujeito percebe o EID como uma verdade a priori, irrefutável e aceita como uma realidade intrínseca, essencial.
A definição revisada e compreensiva de um Esquema Inicial Desadaptativo apresentada por Young e colaboradores (2003, p. 7) caracteriza o EID como:
• um padrão amplo e pervasivo
• composto de memórias, emoções, cognições e sensações corporais
• envolvendo a si mesmo e a relação com os outros
• desenvolvido durante a infância ou adolescência
• elaborado através da trajetória de vida da pessoa
• disfuncional em grau significante
Outras características importantes dos EIDs são seu caráter autoperpetuador e sua resistência à mudança. Mesmo que o sujeito seja enormemente bem sucedido na vida, isto não acarretaria alteração do esquema disfuncional. Os EIDs são o núcleo da auto imagem, e vão realizar uma série de manobras cognitivas, distorcendo o processamento para manter os esquemas. São, na realidade, um sistema de expectativas rígidas sobre si mesmo e o mundo.
Os Esquemas Iniciais Desadaptativos implicam em disfuncionalidade importante, gerando muitas vezes transtornos mentais ou sofrimento psicológico subclínico. São ativados por eventos significativos para a pessoa, como, por exemplo, uma atribuição difícil para uma pessoa com esquema de fracasso, que pode acionar pensamentos autoderrotistas com elevada carga emocional (“não vou conseguir” ou “vou falhar e ser demitido”).

Domínios de Esquema

Jeffrey Young (2003) identificou 18 Esquemas Iniciais Desadaptativos, que são agrupados em cinco amplos domínios de esquema. Young acredita que os Esquemas Iniciais Disfuncionais originam-se pela combinação de fatores biológicos e temperamentais com os estilos parentais e as influências sociais às quais a criança é exposta. Uma criança de temperamento tímido pode estar mais predisposta a apresentar um esquema de isolamento social, e outra biologicamente hiper-reativa à ansiedade pode ter mais dificuldade de superar a dependência em direção à autonomia. Young (2003, p. 24) hipotetiza cinco tarefas desenvolvimentais primárias que a criança necessita realizar para se desenvolver de forma sadia – conexão e aceitação, autonomia e desempenho, auto-orientação, limites realistas e auto-expressão, espontaneidade e prazer. Quando não consegue avançar de forma sadia em função de predisposições temperamentais e experiências parentais e sociais inadequadas, a criança pode desenvolver EIDs em um ou mais domínios de esquema. Ou seja, problemas no estabelecimento de conexão com as outras pessoas e de um sentimento de aceitação por parte dos outros leva a desenvolver EIDs no domínio Desconexão e Rejeição; dificuldades na aprendizagem de autocontrole e senso de limites podem induzir EIDs no domínio Limites Prejudicados, e assim por diante.

Processos de um EID
Todos os organismos apresentam basicamente três respostas quando percebem uma ameaça: luta, fuga ou congelamento (freezing). Segundo Young et al. (2003, p. 33), a ameaça é a frustração de uma necessidade emocional profunda no desenvolvimento afetivo da criança (como ligação segura com os outros, autonomia, auto-expressão livre, espontaneidade e limites realísticos) ou mesmo o medo das intensas emoções que o esquema desencadeia, e a criança responde com um estilo de enfrentamento (coping style) que a princípio é adaptativo, mas torna-se disfuncional com mudança das condições que ocorre à medida que a criança cresce – o que era adaptativo na infância é desadaptativo para o adulto, e o paciente fica aprisionado na rigidez de seu estilo de enfrentamento.
Portanto, os estilos de enfrentamento desadaptativos, apesar de auxiliarem o sujeito a não experimentarem as emoções intensas e opressivas engendradas pelos esquemas, servem como elementos importantes da perpetuação dos mesmos. É importante notar que os esquemas contêm “memórias, emoções, sensações corporais e cognições” (Young et al. 2003, p. 32), mas não envolvem as respostas comportamentais; o comportamento não é parte do esquema, é parte do estilo de enfrentamento.
As respostas comportamentais de luta, fuga ou congelamento correspondem aos três estilos de enfrentamento dos EIDs, a supercompensação, subordinação (no original, surrender), e a evitação do esquema, que podem ocorrer no plano afetivo, comportamental ou cognitivo. Lutar contra o esquema equivale a supercompensar, fugir é equivalente a subordinar-se e o congelamento equivale a evitação. Os três estilos de enfrentamento geralmente operam inconscientemente, e em cada situação, o paciente provavelmente utiliza um deles, mas pode exibir diferentes estilos de enfrentamento em diferentes situações ou com diferentes esquemas (Young, et al. 2003, p. 33). 

Fig. 1.1. Estilos inconscientes de enfrentamento dos EIDs


Estes construtos tornam o modelo cognitivo mais flexível e aberto à identificação de elementos sutis no funcionamento mental inconsciente, produzindo uma fascinante superposição com conceitos teóricos da psicanálise como formação reativa, negação e repressão. No entanto, o modelo subjacente adotado (embora não explicitado pelo autor) do processamento inconsciente é o cognitivo, não o dinâmico – aceita-se a descrição do fenômeno, mas não a explicação dentro da metateoria freudiana, buscando-se com o subsídio da teoria do esquema um modelo explicativo mais adequado.
O conjunto de crenças profundamente enraizadas que Young chamou de esquemas primitivos fundamenta nosso autoconceito e compõe os alicerces na ampla edificação de nossa visão de nós mesmos - nosso modelo do self. Os esquemas primitivos lutam por sua manutenção através de processos de distorção no processamento de informações, comparando os dados de entrada (a realidade do seu próprio comportamento e a do mundo) com o modelo de self (o comportamento esperado e as reações do mundo social e físico). Para reduzir a dissonância cognitiva (Festinger, 1964) produzida pela distância entre o modelo internalizado do self e a realidade são empregados mecanismos de distorção cognitiva. Segundo Jeffrey Young (2003), em nível cognitivo
(...) a manutenção do esquema acontece salientando-se ou exagerando-se informações que confirmam o esquema, e negando-se e minimizando-se informações que contradizem o esquema. Muitos desses processos de manutenção do esquema já foram descritos por Beck como distorções cognitivas (p. 25).
Portanto, as distorções cognitivas identificadas por Beck (1967) na TC são importantes mecanismos mantenedores do esquema, sendo as informações distorcidas para mantê-lo intacto, no processo que Young denominou subordinação ao esquema. O paciente pode resistir enormemente ao exame de seus esquemas e esforçar-se para demonstrar que o mesmo é verdadeiro – sem perceber que está magnificando alguns elementos da sua percepção, minimizando alguns outros, supergeneralizando e utilizando outras distorções.
Padrões de comportamento autoderrotistas contribuem para manter, em nível comportamental, os esquemas primitivos. Uma mulher, por exemplo, pode escolher sempre parceiros arrogantes e dominadores, em decorrência de um esquema subjacente de subjugação. Sem ter consciência deste processo, age de forma tal que reforça sua visão de si mesma como submissa e impotente. Os comportamentos autoderrotistas e as distorções cognitivas são, portanto, os principais mecanismos de subordinação que perpetuam e tornam rígidos e inflexíveis os esquemas primitivos.
A evitação do esquema é um dos mecanismos mais interessantes descritos por Young. Os EIDs acionam alto nível de afeto quando ativados, despertando reações emocionais aversivas intensas como culpa, ansiedade, tristeza ou raiva. Estas reações emocionais funcionam como conseqüências aversivas que, por um processo de condicionamento, acabam com menor probabilidade de serem despertadas novamente, graças à evitação dos esquemas. A alta intensidade emocional pode ser dolorosa e o sujeito “cria processos tanto volitivos quanto automáticos para evitar acionar o esquema ou sentir o afeto a ele conectado” (Young, 2003, p. 26).
A evitação pode ocorrer na esfera cognitiva, afetiva ou comportamental. Evitação cognitiva refere-se às tentativas automáticas ou volitivas de bloquear pensamentos ou imagens que poderiam acionar o esquema. Uma pessoa pode evitar intencionalmente a focalização de acontecimentos dolorosos ou mesmo aspectos negativos de sua personalidade. No entanto, Young enfatiza o processamento inconsciente e o papel da memória na evitação cognitiva;
Também existem processos inconscientes que ajudam as pessoas a excluir informações demasiado perturbadoras. As pessoas tendem a esquecer acontecimentos particularmente dolorosos. Por exemplo, as crianças que foram sexualmente abusadas muitas vezes não tem nenhuma lembrança da experiência traumática. (Young, 2003, p. 79)
No caso de lembranças traumáticas, a hipótese de que a memória consciente ou explícita tenha sido enfraquecida é bastante provável. Um possível substrato neural de alguns mecanismos de evitação cognitiva é o sistema de memória explícita do lobo temporal medial, composto pelo hipocampo e regiões adjacentes, sistema este bastante danificado por níveis cronicamente elevados do hormônio cortisol. A liberação acentuada de cortisol faz parte da reação de estresse que normalmente acompanha experiências traumáticas (Sapolsky, 1998; 2003), o que pode explicar, em parte, o esquecimento das lembranças dolorosas (LeDoux, 1996).
Na evitação cognitiva, pensamentos ou imagens que possam acionar o esquema são bloqueados, e Jeffrey Young estabelece um paralelo importante com conceitos análogos pertencentes ao domínio da Psicanálise, considerando que “alguns destes processos cognitivos de evitação sobrepõe-se ao conceito psicanalítico de mecanismo de defesa. Exemplos disto seriam repressão, supressão e negação” (2003, p. 26). Outras estratégias de evitação cognitiva incluem a despersonalização (um processo através do qual o paciente “se remove psicologicamente da situação que desencadeia um EID” (2003, p. 26) e os comportamentos compulsivos, que tem a função de distrair o paciente de pensamentos perturbadores que acionam os EIDs.
A evitação afetiva diferencia-se da cognitiva pelo foco em bloquear sentimentos desencadeados pelos esquemas primitivos. A evitação afetiva, da mesma forma que a cognitiva, pode envolver tentativas conscientes ou inconscientes de bloquear sentimentos ativados pelos esquemas iniciais. O paciente relata uma experiência de vida perturbadora, mas nega experimentar emocionalmente a situação – existe evitação dos aspectos afetivos sem bloqueio da cognição associada.
Young (2003, p. 39) sugere que duas características evidenciam a evitação afetiva do esquema, a dificuldade de identificar o conteúdo de sintomas ou emoções experienciadas – o paciente sente-se irritado ou triste, mas não consegue relatar a que se referem estes sentimentos – e a presença de sintomas somáticos vagos como tonturas, vertigem, febre, amortecimento ou despersonalização – os sintomas difusos estão presentes em vez de emoções primárias como raiva, medo ou tristeza, o que pode indicar evitação do esquema. A evitação afetiva levaria a mais sintomas psicossomáticos e a manutenção mais prolongada de emoções difusas.
A evitação do esquema, além de afetiva ou cognitiva, também pode ser comportamental, que é basicamente esquivar-se de situações ou circunstâncias reais que ativam esquemas dolorosos. A evitação comportamental pode ser descrita como esquiva de situações aversivas e manifesta-se pelo isolamento nas relações humanas, por fobias e inibições que limitam a vida profissional e familiar. Um sistema de crenças contaminado com um esquema de fracasso, por exemplo, leva o sujeito a evitar desafios e situações competitivas, levando ao insucesso e à confirmação de suas crenças sobre si mesmo, de forma circular e autoperpetuadora.
Em suma, a evitação (afetiva, cognitiva e/ou comportamental) serve para escapar da dor desencadeada pela ativação de um esquema primitivo. No entanto, ao evitar experiências de vida o sujeito também é impedido de refutar a validade de suas crenças. Além disto, o esquema pode nunca ser trazido à superfície e examinado de forma racional. Podemos perceber que estas conseqüências introduzem círculos viciosos fundamentais na psicopatologia e que a evitação, na teoria do esquema, é um mecanismo chave, da mesma forma que o conceito de repressão para Freud representava um papel crucial na gênese das desordens mentais.
O último processo de um EID é a supercompensação do esquema, a adoção de estilos cognitivos ou padrões comportamentais opostos aos prescritos pelos esquemas. Em uma forma de compensação exagerada, a partir de um esquema inicial desadaptativo de privação emocional, um paciente pode comportar-se narcisisticamente, por exemplo. Segundo Young (2003, p.27), o conceito está relacionado à noção psicanalítica de formação reativa. O paciente tenta lutar contra o esquema pensando, sentindo e comportando-se de forma oposta ao esquema. Se o sujeito sentia-se defeituoso na infância, quando adulto tenta ser perfeito; se foi controlado, esforça-se para rejeitar todas as formas de influência, se foi subjugado, quando adulto tenta desafiar a todos, se foi abusado, abusa dos outros, sempre contra-atacando o esquema.
A supercompensação de um esquema é vista como uma tentativa parcialmente saudável de lutar contra o esquema que acaba passando do ponto ótimo, uma espécie de tiro pela culatra. Na tentativa de enfrentar o esquema, o exagero leva a perpetuação do mesmo, e não ao arrefecimento. Na realidade, existem muitos supercompensadores que parecem sadios entre aqueles que se destacam ou são admirados em alguma área, como estrelas da mídia, lideranças políticas ou empresários de sucesso – são pessoas que muitas vezes obtiveram seu sucesso através da supercompensação. Mas, como poderíamos distinguir a linha divisória entre o enfrentamento sadio de um esquema e uma supercompensação patológica? É saudável lutar contra esquemas disfuncionais de forma proporcional à situação, levando em consideração os sentimentos dos outros e direcionando a situação para obter resultados desejáveis. A compensação excessiva de um esquema é freqüentemente insensível a necessidades e direitos dos outros e improdutiva, além de desproporcional aos fatos.
Até agora examinamos os elementos básicos da Teoria do Esquema, mas de que forma conceitos como esquemas primitivos disfuncionais tem suporte na neurobiologia do cérebro? Jeffrey Young procurou endereçar esta questão no livro Schema Therapy (Young et al. 2003), uma espécie de bíblia da Terapia do Esquema que escreveu em colaboração com as terapeutas cognitivas Janet Klosko e Marjorie Weishaar.

Neurobiologia dos Esquemas Primitivos

Idealmente, uma teoria psicoterápica necessita de suporte neurobiológico e das ciências do comportamento no que se refere às suas hipóteses testáveis. Uma abordagem psicoterápica também não poderia contradizer, nas suas formulações e hipóteses que aguardam verificação mais direta, a corrente principal (mainstream) do conhecimento científico e as evidências disponíveis até o momento em outras áreas estabelecidas do conhecimento humano. As teorias que não se preocupam com a aceitação da comunidade científica tendem a ficar enclausuradas em uma redoma de seguidores de caráter quase religioso e, com o tempo, podem caminhar em direção ao isolamento e descrédito.
A Teoria do Esquema está sintonizada com estas preocupações, embora um longo caminho tenha que ser percorrido até podermos dizer que apresenta um correlato neural consistente. Aliás, nenhuma teoria psicoterápica atual atingiu este padrão, que certamente trará prestígio científico. O status de deter um correlato neural é algo almejado por praticamente toda escola psicoterápica, inclusive a Psicanálise – tanto que em 2000 foi fundada em Londres a Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, um esforço de psicanalistas e neurocientistas neste sentido.
Como é natural, a própria complexidade do tema exige flexibilidade teórica para poder abrigar os nuances e sutilezas das interações humanas na saúde e nos transtornos mentais. Uma abordagem que se atenha somente aos aspectos atualmente verificáveis deixaria aspectos importantes de fora. Portanto, somente é possível traçar algumas aproximações entre as neurociências e a terapia – Jeffrey Young et al. (2003) deixam claro que sua proposta de uma visão baseada na biologia do cérebro a respeito dos esquemas é composta por hipóteses ainda não corroboradas sobre possíveis mecanismos de desenvolvimento de esquemas e mudança humana.
Young et al. (2003, p. 26) apresentam um esboço de modelo neurobiológico para a Teoria do Esquema baseado essencialmente no trabalho do neurocientista Joseph LeDoux (1996), expresso no clássico The Emotional Brain.
As recentes pesquisas em neurociências têm mostrado que não existe um sistema emocional único, mas sim vários circuitos neurais encarregados de diferentes emoções, cada um deles envolvido em diferentes funções de sobrevivência - sistemas especializados que evoluíram por seleção natural para resolver problemas de adaptação, como reagir ao perigo, descobrir alimento, achar parceiros e reproduzir, cuidar da prole e estabelecer alianças sociais, por exemplo. O principal foco para a Teoria do Esquema são os circuitos cerebrais envolvidos na regulação do condicionamento do medo e trauma.
De acordo com LeDoux (1996) e Davis (1997), existem dois sistemas que operam em paralelo e estocam diferentes tipos de informação relevante para a experiência de aprendizagem de medo. Um dos sistemas é consciente, implicando em uma representação explícita ou declarativa, e é mediado pelo hipocampo e áreas corticais relacionadas. O outro é inconsciente, e se processa através da amígdala, gerando memórias implícitas ou não-declarativas. As memórias conscientes e inconscientes são recuperadas quando, mais tarde, encontramos os estímulos relacionados a uma experiência traumática. A memória consciente desemboca em lembranças da situação que o sujeito tem pleno acesso, enquanto a recuperação das memórias inconscientes converge para a expressão de mudanças corporais que preparam o organismo para o perigo. Existe uma memória emocional e uma memória cognitiva do mesmo evento traumático, e as respostas emocionais podem ser disparadas sem a participação dos centros superiores de processamento neural envolvidos no pensamento consciente e avaliação racional.
O sistema da amígdala, segue Young citando LeDoux (1996), tem atributos diferentes do sistema do hipocampo e córtices superiores, como podemos notar na tabela 1.2.

Tabela 1. 2. Diferenças entre o sistema da Amígdala / Hipocampo e Córtices Superiores


Conclusão
Em síntese, os estudos atuais em neurociências apontam que as emoções são desencadeadas mais rapidamente e podem existir independentemente das avaliações racionais e pensamentos conscientes característicos dos níveis de processamento superior cortical. As memórias emocionais de experiências traumáticas permanecem conosco para o resto de nossas vidas, inscritas na amígdala, mas podendo ser inibidas e controladas pelo córtex pré-frontal. Com base nestes fundamentos da neuropsicologia do medo e da memória, Young et al. (2003, pp. 28-30) consideram as implicações para o modelo do esquema. Se um sujeito encontra os estímulos remanescentes da situação de infância que ocasionou o desenvolvimento do esquema, as emoções e sensações corporais associadas com o evento são acionadas inconscientemente pelo sistema da amígdala; ou, se o indivíduo está consciente deste processo, as emoções e as reações corporais são ativadas mais rapidamente do que os pensamentos e avaliações conscientes – o grupo de LeDoux verificou que a informação viaja rapidamente (doze milissegundos) por uma via direta desde o tálamo até o núcleo basolateral da amígdala, enquanto a via mais longa do tálamo ao córtex, que pode fazer distinções mais elaboradas, leva dezenove milissegundos (cerca de 65% a mais de duração). Esta ativação das emoções e reações corporais se processa automaticamente e provavelmente permanecerá presente na vida do indivíduo, embora o grau de ativação possa diminuir significativamente com o manejo do esquema.
As memórias e cognições conscientes associadas com o trauma, em contraste, são estocadas no sistema hipocampal e córtices superiores. Segundo Young et al. o fato de que aspectos emocionais e aqueles que envolvem pensamento consciente sobre a experiência traumática estão localizados em diferentes sistemas cerebrais “pode explicar por que esquemas não são modificáveis por simples métodos cognitivos” (2003, p. 29). Este é um ponto central na argumentação, pois Jeffrey Young et al. acreditam que os componentes cognitivos de um esquema freqüentemente se desenvolvem mais tarde, depois que as emoções e sensações corporais já foram estocados no sistema de memória emocional da amígdala.
Muitos esquemas desenvolvem-se em um estágio pré-verbal: Eles se originam antes da criança ter adquirido linguagem. Esquemas pré-verbais surgem quando a criança é tão jovem que tudo que está armazenado são as memórias, emoções e sensações corporais. As cognições são adicionadas depois, quando a criança começa a pensar e falar em palavras. (2003, p. 29)
Uma vez que muitos esquemas são construídos em uma etapa pré-verbal, um dos papéis do terapeuta, para Young, é ajudar o paciente a associar palavras com a experiência do esquema.
Quando um EID é acionado, o sujeito é inundado com emoções e reações corporais, e pode ou não conectar conscientemente esta experiência com a memória da situação original. Outro papel crucial desempenhado pelo psicoterapeuta da Teoria do Esquema é ajudar o paciente a conectar as emoções e sensações corporais (memórias implícitas) disparadas pelo acionamento do EID às memórias de infância explícitas relacionadas à situação.
Segundo Young et al., “a primeira meta da terapia do esquema é consciência psicológica” (2003, p.29). O terapeuta ajuda os pacientes a identificar seus esquemas e se tornar consciente das memórias, emoções, sensações corporais, cognições e estilos de enfrentamento associados com estes esquemas. O autoconhecimento sobre os esquemas e estilos de enfrentamento permite que o paciente exerça certo controle sobre suas reações, aumentando seu poder de escolha e deliberação consciente – exercitando seu livre arbítrio em relação aos EIDs.
LeDoux (1996, p. 265) teorizou que a psicoterapia é uma maneira de reconfigurar os circuitos cerebrais que controlam a amígdala, em cujos circuitos as memórias emocionais estão indelevelmente gravadas. O córtex pré-frontal pode controlar a amígdala e regular sua expressão. Young et al. (2003) acreditam que, à luz deste insight proveniente das Neurociências, “a meta do tratamento é aumentar o controle consciente sobre os esquemas, trabalhando para enfraquecer as memórias, sensações corporais, cognições e comportamentos associados com os mesmos” (p. 29).

Referências Bibliográficas
Beck, A. T. & Alford, B. A. (2000). O poder integrador da Terapia Cognitiva. Porto Alegre: Artes Médicas.        [ Links ]
Beck, A. T. & Emery, G. (1985). Anxiety disorders and phobias: A cognitive perspective. Nova York: Basic Books.        [ Links ]
Beck, A. T. (1963). Thinking and depression: 1. Idiosyncratic content and cognitive distortions. Archives of General Psychiatry, 9, 324-333.        [ Links ]
Beck, A. T. (1964). Thinking and depression: 2. Theory and therapy. Archives of General Psychiatry, 10, 561-571.        [ Links ]
Beck, A. T. (1967). Depression: Clinical, experimental and theoretical aspects. Nova York: Hoeber. (republicado como Depression: Causes and treatment. Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 1972).        [ Links ]
Beck, A. T. (1987). Cognitive models of depression. Journal of Cognitive Psychotherapy 1, 5-37.        [ Links ]
Beck, A. T., Rush, A. J., Shaw, B. P. & Emery, G (1982/1979). Terapia cognitiva da depressão. Rio de Janeiro: Zahar.        [ Links ]
Chamberlin, J. (2000). An historic meeting of the minds. Monitor on Psychology, 31 (9).        [ Links ]
Damásio, A. R. (1999). O erro de Descartes. São Paulo: Cia. Das Letras.        [ Links ]
Damásio, A. R. (2000). O Mistério da Consciência. São Paulo: Cia. Das Letras.        [ Links ]
Damásio, A. R. (2003). Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Cia. Das Letras.        [ Links ]
Davis, M. (1997). The neurobiology of fear responses: The role of amygdala. Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences, 9, 382-402.        [ Links ]
Festinger, L. (1964). Conflict, Decision and Dissonance. Stanford: Stanford University Press.        [ Links ]
Freeman, A. (1998). O desenvolvimento das conceituações cognitivas de tratamento na terapia cognitiva. Em: Freeman, A. & Dattilio, F. M. Compreendendo a Terapia Cognitiva. São Paulo: Editorial Psy, 30-40.        [ Links ]
Guidano, V. F. & Liotti, G. (1983). Cognitive processes and emotional disorders. New York: Guilford.        [ Links ]
Hassin, R. R.; Uleman, J. S. & Bargh, J. A. (2005). The New Unconscious. Oxford: Oxford University Press.        [ Links ]
Kihlstrom, J. F. (1984). Conscious, subconscious, unconscious: A cognitive view. Em Bowers, K. S. & Meichenbaun, D., (Eds.). The Unconscious: Reconsidered. New York: Wiley.        [ Links ]
Kihlstrom, J. F. & Cantor, N. (1984). Mental representations of the self (Em L. Berkowitz (Ed.), Advances in experimental social psychology. Vol. 17, p. 1-47. New York: Academic Press.        [ Links ]
Kihlstrom, J. F, Barnhardt, T. M. & Tataryn, D. J. (1992). Implicit perception. (Em R. F. Bornstein & T. S. Pittman (Eds.), Perception without awareness: Cognitive, clinical and social perspectives (p. 17-54). New York: Guilford Press.         [ Links ]
Kihlstrom, J. F. (1985). Hypnosis. Annual Review of Psychology, 36, 385-418.        [ Links ]
Kihlstrom, J. F. (1987). The cognitive unconscious. Science, 237, 1445-1452.        [ Links ]
LeDoux, J. E. (1996). The emotional brain. New York: Simon & Schuster.         [ Links ]
Ramachandran, V. S. & Blakeslee, S. (2002). Fantasmas no Cérebro: Uma investigação dos mistérios da mente humana. Rio de Janeiro: Record.         [ Links ]
Safran, J. D. (2002). Ampliando os limites da terapia cognitiva. Porto Alegre: Artes Médicas.        [ Links ]
Sapolsky, R. M. (1998). Why Zebras don’t Get Ulcers. New York: W. H. Freeman and Company.        [ Links ]
Sapolsky, R. M. (2003). Assumindo o controle do estresse. Scientific American Brazil 17, 78-87.        [ Links ]
Schacter, D. L. (1987). Implicit memory: History and current status. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 13, 501-518.         [ Links ]
Schacter, D. L. (1992). Understanding implicit memory: A cognitive neuroscience approach. American Psychologist, 47, 559-569.        [ Links ]
Schacter, D. L. (1996). Searching for memory: The brain, the mind, and the past. New York: Basic Books.        [ Links ]
Schacter, D. L. (2003). Os sete pecados da memória. Rio de Janeiro: Rocco        [ Links ]
Schmidt, N. B.; Joiner, T. E.; Young, J. E. & Telch, M. J. (1995). The Schema Questionnaire: Investigation of psychometric properties and the hierarchical structure of a measure of maladaptative schemata. Cognitive Therapy and Research, 19 (3), 295-321.        [ Links ]
Segal, Z. (1988). Appraisal of the self-schema: Construct in cognitive models of depression. Psychological Bulletin, 103, 147-162.        [ Links ]
Squire, L. R. & Kandel, E. R. (2003). Memória: Da mente às moléculas. Porto Alegre: Artmed.        [ Links ]Squire, L. R. (1987). Memory and Brain. New York: Oxford University Press.        [ Links ]
Young, J. E. (1990). Cognitive Therapy for personality disorders. Sarasota, FL: Professional Resources Press.        [ Links ]
Young, J. E. (1999). Cognitive Therapy for personality disorders: A schema-focused approach (rev. ed.). Sarasota, FL: Professional Resources Press.        [ Links ]
Young, J. E. (2003/1999). Terapia Cognitiva para transtornos da personalidade: uma abordagem focada no esquema. Porto Alegre: Artmed.        [ Links ]
Young, J. E., Beck, A. T. & Weinberger, A. (1999). Depressão. Em: Barlow, D. H. (Org). Manual Clínico dos Transtornos Psicológicos (pp. 273-312). Porto Alegre: Artmed.        [ Links ]
Young, J. E., & Klosko, J.(1994). Reinventing Your Life. New York: Plume.        [ Links ]
Young, J. E., Klosko, J. S. & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioners Guide. New York: Guilford Press.        [ Links ]


Endereço para correspondência
Universidade do Sul de Santa Catarina –UNISUL, Rodovia Virgílio Várzea, 1510/201 Bloco B Cond. Central Park, Saco Grande CEP 88032 001, Florianópolis – SC. Email: mcallegaro@brturbo.com.br

Recebido em: 09/04/2005
Aceito em: 20/06/2005